TEXTO PARA AS
PRÓXIMAS 3 QUESTÕES:
Todo o
barbeiro é tagarela, e principalmente quando tem pouco que fazer; começou
portanto a puxar conversa com o freguês. Foi a sua salvação e fortuna.
O navio a que
o marujo pertencia viajava para a Costa e ocupava-se no comércio de negros; era
um dos combóis que traziam fornecimento para o Valongo, e estava pronto a
largar.
— Ó mestre!
disse o marujo no meio da conversa, você também não é sangrador?
— Sim, eu
também sangro...
— Pois olhe,
você estava bem bom, se quisesse ir conosco... para curar 1a gente a bordo; morre-se ali que é uma praga.
— 2Homem, eu da cirurgia não entendo 3muito...
— Pois já não
disse que sabe também sangrar?
— Sim...
— Então já
sabe até demais.
No dia
seguinte 4saiu o nosso homem pela barra fora: a
6fortuna tinha-lhe dado o meio,
cumpria sabê-lo aproveitar; de oficial de barbeiro dava um salto mortal a médico
de navio negreiro; restava unicamente saber fazer render a nova posição.
Isso ficou por sua conta.
Por um feliz
acaso logo nos primeiros dias de viagem adoeceram dois marinheiros; chamou-se o
médico; ele fez tudo o que sabia... sangrou os doentes, e em pouco tempo
estavam bons, perfeitos. Com isto ganhou imensa reputação, e começou a ser
estimado.
Chegaram com
feliz viagem ao seu destino; tomaram o seu carregamento de gente, e voltaram
para o Rio. Graças à 5lanceta do nosso homem, nem um só
negro morreu, o que muito contribuiu para aumentar-lhe a sólida reputação de
entendedor do riscado.
Manuel Antônio
de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.
1. (Fuvest
2011) Neste trecho, em que narra uma cena relacionada ao tráfico de escravos, o
narrador não emite julgamento direto sobre essa prática. Ao adotar tal
procedimento, o narrador
a) revela-se
cúmplice do mercado negreiro, pois fica subentendido que o considera justo e
irrepreensível.
b) antecipa os
métodos do Realismo-Naturalismo, o qual, em nome da objetividade, também
abolirá
os julgamentos
de ordem social, política e moral.
c) prefigura a
poesia abolicionista de Castro Alves, que irá empregá-lo para melhor expor à
execração
pública o horror da escravidão.
d) contribui
para que se constitua a atmosfera de ausência de culpa que caracteriza a obra.
e) mostra-se
consciente de que a responsabilidade pelo comércio de escravos cabia,
principalmente,
aos próprios
africanos, e não ao tráfico negreiro.
2. (Fuvest
2011) A linguagem de cunho popular que está presente tanto na fala das
personagens quanto no discurso do narrador do romance de Manuel Antônio de
Almeida, está mais bem exemplificada em:
a) “quando tem
pouco que fazer”; “cumpria sabê-lo aproveitar”.
b) “Foi a sua
salvação”; “a que o marujo pertencia”.
c) “saber
fazer render a nova posição”; “Chegaram com feliz viagem ao seu destino”.
d) “puxar
conversa”; “entendedor do riscado”.
e) “adoeceram
dois marinheiros”; “sólida reputação”.
3. (Fuvest
2011) Assim como faz o barbeiro, nesse trecho de Memórias de um sargento de
milícias, também a personagem José Dias, de Dom Casmurro, irá se
passar por médico (homeopata), para obter meios de subsistência.
Essa
correlação indica que
I. estamos
diante de uma linha de continuidade temática entre o romance de Manuel Antônio
de Almeida e o romance machadiano da maturidade.
II. agregados
transgrediam com bastante desenvoltura princípios morais básicos, razão pela
qual eram proibidos de conviver com a rígida família patriarcal do Império.
III. os
protagonistas desses romances decalcam um mesmo modelo literário: o do pícaro,
herói do romance picaresco espanhol.
Está correto o
que se afirma em
a) I, apenas.
b) II, apenas.
c) I e II,
apenas.
d) II e III,
apenas.
e) I, II e
III.
4. (Pucsp 2009) Quando saltaram em terra começou a
Maria a sentir certos enojos; foram os dous morar juntos; e daí a um mês
manifestaram-se claramente os efeitos da pisadela e do beliscão; sete meses
depois teve a Maria um filho, formidável menino de quase três palmos de
comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão; o qual, logo depois
que nasceu, mamou duas horas seguidas sem largar o peito. E este nascimento é
certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa, porque o menino
de quem falamos é o herói desta história.
O trecho
anterior integra o romance Memórias de um Sargento de Milícias, de
Manuel Antônio de Almeida. Considerando o romance como um todo, indique a
alternativa que contém informações que NÃO são pertinentes a essa obra.
a) É
classificado como romance folhetinesco, e foi publicado em capítulos no jornal
carioca Correio Mercantil entre 1852 e 1853.
b) Segundo
alguns críticos, pode ser considerado precursor do movimento realista, por
causa da forma como caracteriza o cotidiano dos personagens, moradores dos
bairros populares do Rio de Janeiro.
c) É
considerado como o romance da malandragem, narrado em terceira pessoa e
inteiramente aclimatado no tempo em que D. João VI governou o Brasil.
d) É
considerado um romance picaresco, por causa das ações de seu herói principal, e
plenamente identificado com o ideário romântico vigente na literatura da época.
e) Prende-se
ao Romantismo brasileiro, ainda que apresente certo descompasso com os padrões
e o tom da estética romântica.
5. (Unifesp
2009) Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enojos: foram os
dois morar juntos: e daí a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da
pisadela e do beliscão; sete meses depois teve a Maria um filho (...) E este
nascimento é certamente de tudo o que temos dito o que mais nos interessa,
porque o menino de quem falamos é o herói desta história. (Manuel Antônio de
Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias.)
Com base nas
informações verbais e visuais, é CORRETO afirmar que o beliscão de Maria
representa:
a) A
cumplicidade na situação de aproximação desencadeada pela pisadela.
b) O desdém da
quitandeira frente à intenção de aproximação de Leonardo.
c) A
condenação à atitude de Leonardo, por supor uma intimidade indesejada.
d) O repúdio
da quitandeira à situação, vendo Leonardo como homem desprezível.
e) A aceitação
de uma amizade, mas não de uma aproximação íntima entre ambos.
6. (Fuvest 2008) Apesar de viver "um pouco ao sabor da
sorte", "sem plano nem reflexão", "movido pelas
circunstâncias", como uma espécie de "títere" (expressões de
Antonio Candido), o protagonista das Memórias de um sargento de milícias,
Leonardo (filho), como outras personagens do romance, mostra-se bastante
determinado quando se trata de
a) estabelecer
estratégias para ascender na escala social.
b) assumir
rixas, tirar desforras e executar vinganças.
c) demonstrar
afeto e gratidão por aqueles que o amparam e defendem.
d) buscar um
emprego que lhe garanta a subsistência imediata.
e)
conservar-se fiel ao primeiro amor de sua vida.
7. (Ufrgs 2007) Considere as seguintes afirmações a
respeito de "Memórias de um Sargento de Milícias", de Manuel Antônio
de Almeida.
I - O campo de
abrangência social focalizado pelo romance, narrado com linguagem humorística e
irônica, é a classe média urbana do Rio de Janeiro, sobretudo do centro da
cidade, constituída por homens livres, com relações interpessoais marcadas pela
irreverência e a desordem.
II - O romance
introduz na literatura brasileira a figura do malandro, personagem que oscila
entre as regras de conduta social e sua transgressão, entre o lícito e o
ilícito, sem que esse dualismo receba tratamento moralizante por parte do
autor.
III - É um
romance narrado em primeira pessoa, que privilegia o ponto de vista do narrador
protagonista, Leonardo, e a sua avaliação crítica da sociedade carioca da
segunda metade do século XIX.
Quais estão
corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas I e
II.
d) Apenas II e
III.
e) I, II e
III.
8. (Ufpr 2006) Considere as seguintes afirmações sobre
"Memórias de um sargento de milícias", de Manuel Antônio de Almeida:
I. Publicado
originalmente como folhetim, alcançou o patamar de cânone da literatura
brasileira por inaugurar no Brasil a escola realista-naturalista, muito afeita
a denúncias sociais.
II. A
personagem principal, Leonardo Pataca, filho, embora tendo nascido em uma
família desestruturada, dá mostras de superação pessoal no longo esforço que
lhe custou alcançar o cargo de sargento de milícias.
III. Na
passagem do jornal para o livro, foram mantidos os elementos folhetinescos do
original.
IV. Como a
personagem José Dias, de "Dom Casmurro", Leonardo Pataca, filho, é um
exemplo de agregado, figura típica presente nas grandes famílias brasileiras,
que ganham teto e comida em troca de pequenos favores.
Assinale a
alternativa correta.
a) Apenas a
afirmativa III é verdadeira.
b) Apenas as
afirmativas I, II e III são verdadeiras.
c) Apenas as
afirmativas II, III e IV são verdadeiras.
d) Apenas as
afirmativas I, II e IV são verdadeiras.
e) Apenas as
afirmativas I e II são verdadeiras.
"Memórias
de um Sargento de Milícias" é uma obra de tendência .............. que
apresenta aspectos de transição social relacionados ..............., podendo
ser lida como ..............., com traços de linguagem ................. .
a) naturalista
- ao aumento da imigração no Brasil - relato documental - subjetiva
b) romântica -
ao reinado de D. Pedro II - narrativa em primeira pessoa - erudita
c) realista -
à vinda de D. João VI ao Brasil - crônica de costumes - coloquial
d) romântica -
à abolição da escravatura - narrativa de costumes - objetiva
e) realista -
ao reinado de D. Pedro II - romance histórico - satírica
10. (Puccamp 2005) (...) era o Leonardo Pataca.
Chamavam assim a uma rotunda e gordíssima personagem de cabelos brancos e carão
avermelhado, que era o decano da corporação, o mais antigo dos meirinhos(*) que
viviam nesse tempo. (...) Fora Leonardo algibebe(**) em Lisboa, sua pátria;
aborreceu-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe
por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado, e que
exercia, como dissemos, desde tempos remotos.
( *) meirinho
= funcionário da justiça.
(**) algibebe
= vendedor de roupas baratas; mascate.
(Manuel Antonio de Almeida. "Memórias de um
sargento de milícias". Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos,
1978, p. 6)
Considere as
seguintes afirmações:
I. A
personagem referida nesse trecho é o protagonista do romance.
II. O trecho
faz referência ao sistema de favor, ao compadrismo, que integrava as relações
sociais da época.
III. A
caracterização física de Leonardo Pataca obedece ao modelo do herói romântico.
Em relação ao
texto, está correto o que se afirma SOMENTE em
a) I.
b) II.
c) III.
d) I e II.
e) II e III.
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:
Chegou o dia
de batizar-se o rapaz. (...) Já se sabe que houve nesse dia função: os
convidados do dono da casa, que eram todos dalém-mar, cantavam ao desafio,
segundo seus costumes; os convidados da comadre, que eram todos da terra,
dançavam o fado. O compadre trouxe a rabeca, que é, como se sabe, o instrumento
favorito da gente do ofício. A princípio o Leonardo quis que a festa tivesse
ares aristocráticos, e propôs que se dançasse o minuete da corte. Foi aceita a
ideia, ainda que houvesse dificuldade em encontrarem-se pares. (...) O compadre
foi quem tocou o minuete na rabeca. (...) Depois do minuete foi desaparecendo a
cerimônia, e a brincadeira aferventou, como se dizia naquele tempo.
Chegaram uns
rapazes de viola e machete: o Leonardo, instado pelas senhoras, decidiu-se a
romper a parte lírica do divertimento. Sentou-se num tamborete, em um lugar
isolado da sala, e tomou uma viola. Fazia um belo efeito cômico vê-lo, em
trajes de ofício, de casaca, calção e espadim, acompanhando com um monótono
zunzum nas cordas do instrumento o garganteado de uma modinha pátria. (...)
Foi executada
com atenção e aplaudida com entusiasmo.
O canto do
Leonardo foi o derradeiro toque de rebate para esquentar-se a brincadeira, foi
o adeus às cerimônias. Tudo daí em diante foi burburinho que depressa passou à
gritaria, e ainda mais depressa à algazarra, e não foi ainda mais adiante
porque de vez em quando viam-se passar (...).
11. (Pucsp
2005) No romance "Memórias de um sargento de milícias", considerado
como um todo, há uma forte caracterização dos tipos populares entre os quais
destaca-se a figura de Leonardo filho. Indique a alternativa que contém dados
que caracterizam essa personagem.
a) Narrador
das peripécias relatadas em forma de memórias, conforme vem sugerido no título
do livro, torna-se exemplo de ascensão das camadas sociais menos privilegiadas.
b) Anti-herói,
malandro e oportunista, espécie de pícaro pela bastardia e ausência de uma
linha ética de conduta.
c) Herói de um
romance sem culpa, representa as camadas populares privilegiadas dentro do
mundo da ordem.
d)
Representante típico da fina flor da malandragem, ajeita-se na vida, porque
protegido do Vidigal, permanece imune às sanções sociais e em momento algum é
recolhido à cadeia.
e) Herói às
avessas que incorpora a exclusão social, porque, não tendo recebido amparo de
nenhuma espécie, não alcança a patente das milícias e se priva de qualquer tipo
de herança.
a) desafio /
fado / minuete
b) burburinho
/ gritaria / algazarra
c) viola /
rabeca / modinha
d) casaca /
calção / espadim
e) português /
brasileiro / corte
1 - D
2 - D
3 - A
4 - D
5- A
6- B
7- C
8-A
9-C
10-B
11-B
12-B
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