terça-feira, 26 de novembro de 2013

A CIDADE E AS SERRAS esquema geral

A CIDADE E AS SERRAS
EÇA DE QUEIRÓS


TEMPO E ESPAÇO 
O narrador-personagem, José Fernandes, é quem conta a história do amigo Jacinto. A narrativa se passa no século XIX, quando Paris era considerada a capital da Europa e o centro do mundo. Portugal, no entanto, mantinha-se como um país agrário e decadente. 
Havia grande entusiasmo, nos meios intelectuais da época, pelas teorias positivistas de Augusto Comte, criador do sistema que ordena as ciências experimentais, considerando-as o modelo por excelência do conhecimento humano, em detrimento das especulações metafísicas ou teológicas. 

ENREDO 
A narrativa inicia-se com a história de dom Galião, grande proprietário que, ao escorregar numa casca de laranja, é socorrido pelo infante dom Miguel. Desse dia em diante, o rechonchudo velho torna-se partidário fanático do príncipe. 

Em 1831, dom Pedro retorna do Brasil para assumir o trono português, destronando seu irmão, dom Miguel. Indignado, dom Galião muda-se de Portugal para Paris, levando consigo Grilo, futuro criado de Jacinto. 

Em Paris, o filho de dom Galião, Cintinho, torna-se uma criança doente e tristonha. Quando adulto, seu aspecto não melhora. Em sua única decisão mencionada no livro, prefere ficar em Paris e casar-se com a filha de um desembargador a ir tratar-se no campo. Conclusão: morre três meses antes de nascer Jacinto, seu único filho. 

Jacinto cresce como um menino forte, saudável e inteligente. Na faculdade, seu colega Zé Fernandes (o narrador) o apelida de “Príncipe da Grã-Ventura”. Em Paris, andavam em voga as teorias positivistas, das quais o protagonista se revela entusiasta. Jacinto elabora uma filosofia de vida: 

“A felicidade dos indivíduos, como a das nações, se realiza pelo ilimitado desenvolvimento da mecânica e da erudição”. 

O resultado desse entusiasmo de Jacinto por Paris, porém, se revela desastroso. Zé Fernandes retrata dessa forma a decadência do protagonista, de quem se havia separado durante sete anos: 

“Reparei então que meu amigo emagrecera; e que o nariz se lhe afilara mais entre duas rugas muito fundas, como as de um comediante cansado. Os anéis de seu cabelo lanígero rareavam sobre a testa, que perdera a antiga serenidade de mármore bem polido. Não frisava agora o bigode, murcho, caído em fios pensativos. Também notei que corcovava”. 

Zé Fernandes, então, também se deixa levar por Paris, ao ser dominado por uma paixão carnal pela prostituta Madame Colombe. O caso contraria as teorias de Jacinto, expostas no começo do livro, segundo as quais o homem se tornava um selvagem no campo. Nesse caso, foi a cidade de Paris que transformou Zé Fernandes num escravo de seus instintos. 

Segue-se uma série de episódios que ilustram o ridículo que se escondia sobre a pretensa superioridade dos parisienses. Jacinto torna-se entediado, doente, chega a lembrar seu pai, Cintinho. Então ocorre uma reviravolta: a igreja onde estavam enterrados os avós de Jacinto vem abaixo durante uma tormenta. Ele manda que se reconstrua tudo, sem se importar com os gastos. 

Na viagem de volta a Portugal, Jacinto perde quase toda a bagagem. Seu país, no entanto, devolve a saúde ao protagonista, que, revigorado, promove diversas melhorias em Tormes. Finalmente, ele se casa com Joaninha, camponesa e prima de Zé Fernandes. Na última cena do livro, Zé Fernandes, também enfastiado de Paris, parte para Tormes – o “castelo da grã-ventura” – com Jacinto e Joaninha. 

CAMPO E CIDADE 
A temática do campo versus cidade – recorrente nas obras do escritor português – é o cerne do romance A cidade e as serras, como o próprio título indica. Na tradição da literatura ocidental, o gênero bucólico ou pastoral sempre tratou da oposição entre a vida tranquila e sábia do camponês e a vida urbana, cheia de agitação fútil. Para diferenciar o que ocorre no gênero pastoral e nesse romance, é preciso entender os pressupostos daquela oposição. Por que a vida no campo seria mais “sábia” que a vida na cidade? 

O gênero bucólico, cultivado por inúmeros autores desde a Antiguidade, caracteriza-se pela criação de um personagem lírico – um pastor fictício – cujo conhecimento provém da contemplação minuciosa da natureza. Sua expressão poética será tanto mais eficaz quanto mais transmitir o efeito de possuir duas qualidades principais: sabedoria e simplicidade. 

O conceito de sabedoria mudou muito no decorrer da história. Sem a pretensão de aprofundar aqui os vários significados que a palavra teve, é interessante mostrar como esse conceito se torna problema na obra de Eça. 

O teórico Walter Benjamin definiu sabedoria como “a teoria entretecida na experiência”, fórmula que desvaloriza tanto a ação que se promove sem o governo da razão, limitada pela ignorância (simbolizada na figura do selvagem), quanto a teoria desvinculada das ações e da vida sensível (simbolizada principalmente pela informação). 

MODERNIDADE 
No romance, um exemplo de como a questão aparece está na cena em que Zé Fernandes, após ter passado sete anos em Portugal, reencontra Jacinto em Paris. Depois de verificar que o amigo parecia mais magro e abatido e admirar-se com as inovações do 202 (número da casa de Jacinto na capital francesa), Zé Fernandes observa espantado o funcionamento de um telégrafo, que transmite a Jacinto a informação de que “a fragata russa Azoff entrara em Marselha com avaria”. 
Enquanto isso, Jacinto está ocupadíssimo ao telefone. O visitante pergunta então ao anfitrião “se o prejudicava diretamente aquela avaria da Azoff”. A resposta do entediado Jacinto é: “Da Azoff?... a avaria? A mim... Não! É uma notícia”. 

Trata-se de um dado que não tem importância para Jacinto, pois sua existência está completamente afastada do destino da embarcação russa. A informação, porém, estabelece um falso vínculo entre ambos os eventos. Jacinto assiste a tudo, mas não pode tomar nenhuma atitude. A constatação é que o homem informado assiste a um jogo complexo de acontecimentos que se desenrolam por todos os lugares do mundo, muitos sem nenhuma relação aparente entre si, e fica como Jacinto diante do telégrafo: agoniado e entediado. 

Quando o protagonista volta a Portugal, encontra o mundo da experiência alheia à teoria. Se em Paris ele tinha um milhão de instrumentos incapazes de proporcionar uma vida saudável, em Portugal falta-lhe até uma cama confortável, sendo preciso improvisar uma entre as pedras. 

Vale lembrar que Jacinto fora chamado a Tormes – sua propriedade em Portugal – para reconstruir o túmulo de seus ancestrais, o que pode ser interpretado como uma religação do protagonista com suas origens, citadas no início do livro. Porém, o Jacinto que retorna é um homem muito informado e pode agora aplicar parte da grande carga teórica que adquiriu ao contexto português. É preciso primeiro livrar-se da complexidade inútil do jogo das informações e articulá-las de modo eficiente. Em resumo: agir com simplicidade. O protagonista, então, torna-se sujeito de uma ação bem direcionada, conseguindo promover muitas melhorias em Tormes, lugar atrasado e pobre.

A ideia de sabedoria encontrada nesse romance, portanto, se desvincula do que determina o gênero bucólico, em que a contemplação da natureza é a responsável pela produção do saber. O que vemos aqui é uma ideia muito mais próxima de nossa modernidade, na qual há uma ruptura entre a informação e a experiência pessoal. 

CONCLUSÃO 
As obras de Eça de Queirós podem ser agrupadas em três fases: a primeira, experimental, em que o autor publicou artigos irregulares em folhetins; a segunda, fortemente realista, que vai desde a publicação de O Crime do Padre Amaro, em 1875, até a de Os Maias, em 1888; e a terceira, pós-realista, na qual o autor se reconcilia com a sua Portugal. Nessa, destaca-se A Ilustre Casa de Ramires, de 1900, além de A Cidade e as Serras. 

A temática tratada, campo versus cidade, vem de uma longa tradição literária e é recorrente na obra do autor. Nesse romance, ele se dedica a mostrar a futilidade reinante em Paris e a satirizar as ideias positivistas que deslumbravam a juventude intelectual da época.


E DEU DRUMMOND!

Com 5 questões dedicadas ao poema Revelação do subúrbio podemos dizer que Drummond foi o bola de ouro da Fuvest 2014. Vamos falar sobre a prova de domingo, resolver mais algumas questões  e encerrarmos nossos encontros ao cair da tarde, com a exibição do vídeo português dedicado ao Viagens na minha terra.  Não percam!

PROFESSOR CARLOS FELIPE MOISÉS ANALISA "VIAGENS NA MINHA TERRA"

Em mais uma edição da Rádio Livro, produzida pela Rádio USP, o Professor Carlos Felipe Moisés analisa a obra de Almeida Garrett, Viagens na minha terra.
http://www.radio.usp.br/?page_id=1550

PROGRAMA DA RÁDIO USP (FM 93,7 MHz) ANALISA "MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS"

Mais um programa da Rádio Livro, um papo sobre o sargento de milícias. Aproveite!
http://www.radiousp.usp.br/programa.php?id=117&edicao=131030

QUESTÕES TRABALHADAS NO ENCONTRO DO DIA 19/11


1. (Ita)  As personagens desta obra, que anunciam um movimento literário posterior, são quase caricaturas de tipos do estrato socioeconômico médio da sociedade da época – o mestre de rezas, a cigana, o barbeiro, dentre outras. Elas agem conforme as necessidades de sobrevivência, sem moralismos ou escrúpulos. As personagens, de certa forma, representam aspectos da cultura brasileira, entre os quais se destaca o “jeitinho brasileiro”. Trata-se de:
a) O cortiço, de Aluísio Azevedo.   
b) O Ateneu, de Raul Pompéia.   
c) Macunaíma, de Mário de Andrade.   
d) Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida.   
e) Memórias sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade.   

Resposta:

[D]

De acordo com alguns críticos literários, Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, por algumas de suas características e pelo fato de apresentar pouquíssimos traços da escola literária de seu tempo, o Romantismo, anuncia aspectos do Realismo. Seus personagens não são idealizados e chegam a representar caricaturas ou tipos sociais e agem mais pela necessidade de sobrevivência do que por valores morais.



  
2. (Fuvest)  Leia o seguinte texto.

O autor pensava estar romanceando o processo brasileiro de guerra e acomodação entre as raças, em conformidade com as teorias racistas da época, mas, na verdade, conduzido pela lógica da ficção, mostrava um processo primitivo de exploração econômica e formação de classes, que se encaminhava de um modo passavelmente bárbaro e desmentia as ilusões do romancista.

Roberto Schwarz. Adaptado.

Esse texto crítico refere-se ao livro
a) Memórias de um sargento de milícias.   
b) Til.   
c) O cortiço.   
d) Vidas secas.   
e) Capitães da areia.   

Resposta:

[C]

Roberto Schwartz refere-se ao romance “O cortiço” de Aluísio de Azevedo o qual, segundo ele, é mais representativo de práticas recorrentes no Brasil do século XIX do que demonstrativo dos preceitos deterministas da escola naturalista que justificava a decadência social pela mistura de raças.



  
3. (Fuvest)  Os momentos históricos em que se desenvolvem os enredos de Viagens na minha terra, Memórias de um sargento de milícias e Memórias póstumas de Brás Cubas (quanto a este último, em particular no que se refere à primeira juventude do narrador) são, todos, determinados de modo decisivo por um antecedente histórico comum – menos ou mais imediato, conforme o caso. Trata-se da
a) invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas.   
b) turbulência social causada pelas revoltas regenciais.   
c) volta de D. Pedro I a Portugal.   
d) proclamação da independência do Brasil.   
e) antecipação da maioridade de D. Pedro II.   

Resposta:

[A]

Os momentos históricos em que se desenvolvem os enredos de “Viagens na minha terra”, “Memórias de um sargento de milícias” e “Memórias póstumas de Brás Cubas” estão relacionados com a invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas. No primeiro, exibem-se os conflitos de uma sociedade em crise que se dividia entre o absolutismo de teor nacionalista e o liberalismo, associado por muitos ao país invasor e por isso considerado antinacionalista. Em “Memórias de um sargento de milícias”, relatam-se os costumes do Rio Colonial na época de D. João VI, momento em que a corte real portuguesa se refugiou no Brasil para evitar a rendição às tropas francesas.  Em “Memórias póstumas de Brás Cubas”, o narrador relata que, durante a sua infância, eram frequentes debates familiares sobre o referido tema. Assim, é correta a opção [A].



4. (Fuvest)  Em Viagens na minha terra, assim como em
a) Memórias de um sargento de milícias, embora se situem ambas as obras no Romantismo, criticam-se os exageros de idealização e de expressão que ocorrem nessa escola literária.   
b) A cidade e as serras, a preferência pelo mundo rural português tem como contraponto a ojeriza às cidades estrangeiras – Paris, em particular.   
c) Vidas secas, os discursos dos intelectuais são vistos como “a prosa vil da nação”, ao passo que a sabedoria popular “procede da síntese transcendente, superior e inspirada pelas grandes e eternas verdades”.   
d) Memórias póstumas de Brás Cubas, a prática da divagação e da digressão exerce sobre todos os valores uma ação dissolvente, que culmina, em ambos os casos, em puro niilismo.   
e) O cortiço, manifestam-se, respectivamente, tanto o antibrasileirismo do escritor português quanto o antilusitanismo do seu par brasileiro, assim como o absolutismo do primeiro e o liberalismo do segundo.   


Resposta:

[A]

As opções [B], [C], [D] e [E] são incorretas, pois em “Viagens na minha terra”, de Almeida Garrett, não se manifesta

[B] aversão às cidades estrangeiras;
[C] oposição de discurso de intelectuais à estratégia de sobrevivência dos retirantes de “Vidas Secas”, cuja “sabedoria” não é fundada em análises filosóficas nem existenciais, mas sim primária e instintiva;
[D] postura niilista semelhante à de alguns capítulos de “Memórias póstumas de Brás Cubas”;
[E] não existe antibrasileirismo e seu autor reflete através do personagem Carlos os conceitos do liberalismo.

Assim, é correta apenas [A]. 



  
5. (Unicamp)  Os trechos a seguir foram extraídos de Memórias de um sargento de milícias e Vidas secas, respectivamente.

O som daquela voz que dissera “abra a porta” lançara entre eles, como dissemos, o espanto e o medo. E não foi sem razão; era ela o anúncio de um grande aperto, de que por certo não poderiam escapar. Nesse tempo ainda não estava organizada a polícia da cidade, ou antes estava-o de um modo em harmonia com as tendências e ideias da época. O major Vidigal era o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo o que dizia respeito a esse ramo de administração; era o juiz que julgava e distribuía a pena, e ao mesmo tempo o guarda que dava caça aos criminosos; nas causas da sua imensa alçada não haviam testemunhas, nem provas, nem razões, nem processo; ele resumia tudo em si; a sua justiça era infalível; não havia apelação das sentenças que dava, fazia o que queria, ninguém lhe tomava contas. Exercia enfim uma espécie de inquirição policial. Entretanto, façamos-lhe justiça, dados os descontos necessários às ideias do tempo, em verdade não abusava ele muito de seu poder, e o empregava em certos casos muito bem empregado.

(Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978, p. 21.)

Nesse ponto um soldado amarelo aproximou-se e bateu familiarmente no ombro de Fabiano:
– Como é, camarada? Vamos jogar um trinta-e-um lá dentro?
Fabiano atentou na farda com respeito e gaguejou, procurando as palavras de seu Tomás da bolandeira:
– Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme.
Levantou-se e caminhou atrás do amarelo, que era autoridade e mandava. Fabiano sempre havia obedecido. Tinha muque e substância, mas pensava pouco, desejava pouco e obedecia.

(Graciliano Ramos, Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2007, p. 28.)

a) Que semelhanças e diferenças podem ser apontadas entre o Major Vidigal, de Memórias de um sargento de milícias, e o soldado amarelo, de Vidas secas?
b) Como essas semelhanças e diferenças se relacionam com as características de cada uma das obras?


Resposta:

a) Tanto o Major Vidigal quanto o soldado amarelo representavam a autoridade num círculo social carente de recursos jurídicos que limitassem o seu poder, por isso impunham a ordem de forma arbitrária, segundo os seus próprios juízes de valor. No entanto, o Major Vidigal fazia-o de forma mais moderada e, algumas vezes, justa, enquanto o soldado amarelo infringia o código de boa conduta e abusava do poder para humilhar as pessoas.
b) “Memórias de um sargento de milícias” é uma obra descompromissada com crítica social ou denúncia da realidade da época. Trata-se de uma crônica de costumes em que os personagens de classe média baixa tentam driblar as dificuldades do cotidiano com atitudes nem sempre muito éticas ou regidas por princípios morais. Já “Vidas secas” pertence ao neorrealismo da literatura brasileira, uma obra que pretende denunciar a realidade miserável do nordestino brasileiro, oprimido pelo meio inóspito em que vive e pelo sistema político a que está submetido. Assim, o Major Vidigal, terror de todos os malandros e baderneiros da época, age movido pela necessidade de impor a ordem, embora nem sempre os seus atos sejam modelo de boa conduta moral. O soldado amarelo, símbolo de repressão e do autoritarismo pelo qual é comandado (ditadura Vargas), é oportunista e medroso, pois não é forte quando se sabe sozinho, em lugar que não domina ou longe da proteção da ditadura, como quando, perdido no meio da caatinga, se acovarda diante do gesto ameaçador de Fabiano.

   
6. (Fuvest)  Como não expressa visão populista nem elitista, o livro não idealiza os pobres e rústicos, isto é, não oculta o dano causado pela privação, nem os representa como seres desprovidos de vida interior; ao contrário, o livro trata de realçar, na mente dos desvalidos, o enlace estreito e dramático de limitação intelectual e esforço reflexivo. Essas afirmações aplicam-se ao modo como, na obra
a) O Cortiço, são representados os portugueses trabalhadores e os mulatos marginalizados na sociedade brasileira em formaçãol.   
b) Memórias de um sargento de milícias, são figuradas Luisinha e as crias da casa de D. Maria.   
c) memórias póstumas de Brás Cubas, são figurados os escravos da casa da família de Virgília.   
d) A cidade e as serras, são representados os camponeses de Tormes.   
e) Vidas secas, são figurados Fabiano, sinha Vitória e os meninos.   

Resposta:

[E]

Vidas Secas, de Graciliano Ramos, relata a luta pela sobrevivência do retirante nordestino através dos personagens Fabiano, sinhá Vitória e os meninos. A paisagem árida da caatinga, o isolamento social, a opressão do trabalho no latifúndio produzem o ressecamento do ser, a limitação intelectual e o entendimento de mundo que os rodeia. Com frases curtas, períodos simples e o uso do discurso indireto livre, o narrador fornece elementos que permitem ao leitor entender a visão fragmentada de Fabiano e sua família sob as condições adversas da realidade do sertão.



  
7. (Fuvest)  Considere a seguinte afirmação: Ambas as obras criticam a sociedade, mas apenas a segunda milita pela subversão da hierarquia social nela representada.
Observada a sequência, essa afirmação aplica-se a
a) A cidade e as serras e Capitães da areia.   
b) Vidas secas e Memórias de um sargento de milícias.   
c) O cortiço e Iracema.   
d) Auto da barca do inferno e A cidade e as serras.   
e) Iracema e Memórias de um sargento de milícias.   

  

Resposta:

[A]

Em “A cidade e as serras”, Eça de Queirós apresenta uma visão paternalista da sociedade, apontando os defeitos de uma sociedade em que a atuação de uma classe culta e aristocrática, representada por Jacinto, é essencial para se efetuar uma mudança. Trata-se de uma visão reformista em que não é posta em questão nenhuma mudança hierárquica. Ao contrário, Jorge Amado em “Capitães da areia”, apresenta uma postura radical, ao transformar o protagonista Pedro Bala num líder sindical dotado de consciência ideológica, decidido a impulsionar uma revolução social. 



  
8. (Unicamp)  Leia os seguintes trechos de Memórias de um sargento de milícias e Vidas secas, que descrevem o estado de ânimo das personagens ao final de uma festa:

            Acabado o fogo, tudo se pôs em andamento, levantaram-se as esteiras, espalhou-se o povo. D. Maria e sua gente puseram-se também em marcha para casa, guardando a mesma disposição com que tinham vindo. Desta vez porém Luisinha e Leonardo, não é dizer que vieram de braço, como este último tinha querido quando foram para o Campo, foram mais adiante do que isso, vieram de mãos dadas muito familiar e ingenuamente. Este ingenuamente não sabemos se se poderá com razão aplicar ao Leonardo. Conversaram por todo o caminho como se fossem dois conhecidos muito antigos, dois irmãos de infância, e tão distraídos iam que passaram à porta da casa sem parar, e já estavam muito adiante quando os sios de D. Maria os fizeram voltar. A despedida foi alegre para todos e tristíssima para os dois.

(Manuel Antonio de Almeida, Memória de um sargento de milícias. São Paulo: Ática, 2004, Capítulo XX - “O fogo no Campo”, p. 71.)

            Baleia cochilava, de quando em quando balançava a cabeça e franzia o focinho. A cidade se enchera de suores que a desconcertavam. Sinha Vitória enxergava, através das barracas, a cama de seu Tomás da bolandeira, uma cama de verdade.
            Fabiano roncava de papo para cima, as abas do chapéu cobrindo-lhe os olhos, o quengo sobre as botinas de vaqueta.
            Sonhava, agoniado, e Baleia percebia nele um cheiro que o tornava irreconhecível. Fabiano se agitava, soprando. Muitos soldados amarelos tinham aparecido, pisavam-lhe os pés com enormes reiúnas e ameaçavam-no com facões terríveis.

(Graciliano Ramos, Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2007, p. 82-83.)

a) Explique as diferenças do estado de ânimo das personagens ao final dos dois episódios.
b) A partir dessa diferença, explique o significado que as duas festas têm em cada um dos romances.

  

Respostas:

a) De uma maneira geral, as personagens de “Memórias de um Sargento de Milícias” estão alegres com o passeio e voltam a suas casas felizes e bem-dispostas, apenas Luisinha e Leonardo se mostram tristes pela breve separação. Em “Vidas Secas”, Baleia manifesta inquietação ao perceber a agitação do sono agoniado de Fabiano e o desconforto de Sinha Vitória produzido pelos sapatos apertados o que a faz lembrar de outros, como a da cama de jiraus que gostaria de ver substituída por outra mais confortável, como a que vira na fazenda de Seu Tomás da Bolandeira.

b) Os personagens de “Memórias de um Sargento de Milícias” usufruem de um momento de lazer e apreciam a festa numa situação de conforto que não encontra paralelo na família de Fabiano.  Os retirantes nordestinos viviam em condições precárias, numa situação de isolamento de mundo que não lhes permitia aproveitar o convívio social de uma festa natalina: Fabiano sentia vontade de se vingar, Sinha Vitória sonhava com o conforto de uma cama de couro, Baleia estava confusa com os cheiros que desconhecia. Ao contrário, Leonardo, Luisinha, D.Maria e o barbeiro, por viverem em situação economicamente mais confortável, sentiam-se satisfeitos e alegres pelo piquenique e a festa de fogos.



  
9. (Fuvest)  - (...) É uma bela moça, mas uma bruta... Não há ali mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca turina. Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso a fez a Natureza, assim sã e rija; e ela cumpre. O marido todavia não parece contente, porque a desanca. Também é um belo bruto... Não, meu filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo...
Eça de Queirós, A cidade e as serras.

Neste excerto, o julgamento expresso por Jacinto, ao falar de um casal que o serve em sua quinta de Tormes, manifesta um ponto de vista semelhante ao do
a) Major Vidigal, de Memórias de um sargento de milícias, ao se referir aos desocupados cariocas do tempo do rei.   
b) narrador de Iracema, em particular quando se refere a tribos inimigas e a franceses.   
c) narrador de Vidas secas, principalmente quando ele enfoca as relações sexuais de Fabiano e Sinha Vitória.   
d) Anjo, do Auto da barca do inferno, ao condenar os pecados da carne cometidos pelos humanos.   
e) narrador de O cortiço, especialmente quando se refere a personagens de classes sociais inferiores.   


  
Resposta:

[E]

A comparação que é feita entre personagens humanos e bicho está presente tanto no trecho em questão quanto na obra O Cortiço, representante do Naturalismo brasileiro.


10. (Fuvest)  Inimigo da riqueza e do trabalho, amigo das festas, da música, do corpo das cabrochas. Malandro. Armador de fuzuês. Jogador de capoeira navalhista, ladrão quando se fizer preciso.

Jorge Amado, Capitães de areia.

O tipo cujo perfil se traça, em linhas gerais, neste excerto, aparece em romances como Memórias de um sargento de milícias, O cortiço, além de Capitães de areia. Essa recorrência indica que
a) certas estruturas e tipos sociais originários do período colonial foram repostos durante muito tempo, nos processos de transformação da sociedade brasileira.   
b) o atraso relativo das regiões Norte e Nordeste atraiu para elas a migração de tipos sociais que o progresso expulsara do Sul/Sudeste.   
c) os romancistas brasileiros, embora críticos da sociedade, militaram com patriotismo na defesa de nossas personagens mais típicas e mais queridas.   
d) certas ideologias exóticas influenciaram negativamente os romancistas brasileiros, fazendo-os representar, em suas obras, tipos sociais já extintos quando elas foram escritas.   
e) a criança abandonada, personagem central dos três livros, torna-se, na idade adulta, um elemento nocivo à sociedade dos homens de bem.   

 Resposta:

[A]

Apesar de as obras citadas terem sido escritas em épocas diferentes, a realidade mostrada em cada uma delas continua a mesma.


TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
Morro da Babilônia

À noite, do morro
descem vozes que criam o terror
(terror urbano, cinquenta por cento de cinema,
e o resto que veio de Luanda ou se perdeu na língua geral).

Quando houve revolução, os soldados se espalharam no morro,
o quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns, chumbados, morreram.
O morro ficou mais encantado.

Mas as vozes do morro
não são propriamente lúgubres.
Há mesmo um cavaquinho bem afinado
que domina os ruídos da pedra e da folhagem
e desce até nós, modesto e recreativo,
como uma gentileza do morro.

Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.  


1. (Fuvest)  Guardadas as diferenças que separam as obras a seguir comparadas, as tensões a que remete o poema de Drummond derivam de um conflito de
a) caráter racial, assim como sucede em A cidade e as serras.   
b) grupos linguísticos rivais, de modo semelhante ao que ocorre em Viagens na minha terra.   
c) fundo religioso e doutrinário, como o que agita o enredo de Til.   
d) classes sociais, tal como ocorre em Capitães da areia.   
e) interesses entre agregados e proprietários, como o que tensiona as Memórias póstumas de Brás Cubas.   


Resposta:

[D]

Apenas no romance “Capitães da Areia” as tensões sociais entre ricos e pobres se aproximam das sugeridas nos versos de Drummond, como se afirma em [D].



2. (Ibmecrj)  Em 2008, o Brasil celebra a memória de Joaquim Maria Machado de Assis, o "Bruxo do Cosme Velho", que morreu há cem anos, no dia 29 de setembro, já reconhecido como o maior escritor brasileiro. Revisitar a obra de Machado pensada em seu conjunto é redescobrir um dos estilos mais originais e modernos da literatura universal.

                                   TEXTO I

Esse texto é o último capítulo de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, obra que inaugura uma segunda etapa da produção de Machado.

Capítulo CLX - DAS NEGATIVAS
[...]
            1Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplastro, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, 2coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de dona Plácida, nem a semidemência de Quincas Borba. 3Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque 4ao chegar a esse outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - 9Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

            ("Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis)
                                   TEXTO II

O texto a seguir foi retirado da obra de Graciliano Ramos, "Vidas Secas". Esse romance completou, em agosto de 2008, 70 anos de sua primeira publicação. É narrado em 3a pessoa (ao contrário das obras anteriores de Graciliano) e pertence a um gênero intermediário entre romance e livro de contos.

            Fabiano, uma coisa da fazenda, 1um triste, seria despedido quando menos esperasse. Ao ser contratado, recebera o cavalo de fábrica, peneiras, gibão, guarda-peito e sapatões 3de couro, mas ao sair largaria tudo ao vaqueiro 7que o substituísse.
            Sinhá Vitória desejava possuir uma cama igual à de seu Tomás da bolandeira. Doidice.
            Não dizia nada para não contrariá-la, mas sabia que era doidice. Cambembes podiam ter luxo? E estavam ali de passagem.
            Qualquer dia o patrão os botaria fora, e eles ganhariam o mundo, sem rumo, nem teria meio de conduzir os cacarecos. Viviam de trouxa amarrada, dormiriam bem debaixo de um pau.
            Olhou a caatinga 4amarela, 5que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta 2verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera.
            E antes de se entender, antes de nascer, 8sucedera o mesmo - anos bons, misturados com anos ruins. A desgraça estava em caminho, talvez andasse perto. Nem valia a pena trabalhar. Ele marchando para casa, trepando a ladeira, espalhando 6seixos 9com as alpercatas - ela se avizinhando 10a galope, com vontade de matá-lo.

            ("Vidas Secas" - Graciliano Ramos)



 Os dois textos da narrativa brasileira lidos possuem um tema recorrente. Assinale a opção que contém esse tema.
a) O entusiasmo de Machado pelo país e pelo povo brasileiro e a falta de entusiasmo pelo país no texto de Graciliano.   
b) O ácido humor do povo brasileiro apresentado pelos personagens das duas obras.   
c) A morte como um instrumento de interpretação do mundo em Memórias Póstumas e, em, Vidas Secas, descrita como degradação social.   
d) A falta de sintonia com a realidade presente nos personagens das duas obras.   
e) Os conflitos no ambiente familiar retratados nos dois romances.   

 Resposta:

[C]





TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
“- Assim, pois, o sacristão da Sé, um dia, ajudando a missa, viu entrar a dama, que devia ser sua colaboradora na vida de D. Plácida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou, disse-lhe alguma graça, pisou-lhe o pé, ao acender os altares, nos dias de festa. Ela gostou dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou D. Plácida. É de crer que D. Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: - Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: - Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia".
(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)


3. (Fuvest)  Consideradas no contexto em que ocorrem, constituem um caso de antítese as expressões
a) "disse-lhe alguma graça" - "pisou-lhe o pé".   
b) "acertaram-se" - "amaram-se".   
c) "os dedos no tacho" - "os olhos na costura".   
d) "logo desesperada" - "amanhã resignada".   
e) "na lama" - "no hospital".   

 Resposta:

[D]


QUESTÕES PARA "VIAGENS NA MINHA TERRA"

1. (Unicamp 2013)  Leia os seguintes trechos de Viagens na minha terra e de Memórias Póstumas de Brás Cubas:

Benévolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é consciência, um resto de consciência: acabemos com estas digressões e perenais divagações minhas.

(Almeida Garrett, Viagens na minha terra. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1969, p.187.)

Neste despropositado e inclassificável livro das minhas Viagens, não é que se quebre, mas enreda-se o fio das histórias e das observações por tal modo, que, bem o vejo e o sinto, só com muita paciência se pode deslindar e seguir em tão embaraçada meada.

(Idem, p. 292.)

Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás íntimo, por que o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...

(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, em Romances, vol I. Rio de Janeiro: Garnier, 1993, p. 140.)

a) No que diz respeito à forma de narrar, que semelhanças entre os dois livros são evidenciadas pelos trechos acima?
b) Que tipo de leitor esta forma de narrar procura frustrar, e de que maneira esse leitor é tratado por ambos os narradores?


Resposta:

a) Em ambos os textos, os narradores em 1ª pessoa estabelecem diálogo com o leitor (“Benévolo e paciente leitor”, “o maior defeito deste livro és tu, leitor”), usam o recurso da função metalinguística (“Neste despropositado e inclassificável livro das minhas Viagens”, “Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica”) e desviam-se da narrativa cronológica para abrirem espaço a digressões (“acabemos com estas digressões e perenais divagações minhas”, “este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem”).
b) O leitor é tratado de forma respeitosa no excerto de Almeida Garrett e irônica no de Machado de Assis. Ambos deduzem que o público da época preferia a narrativa linear, com recursos técnicos facilitadores de leitura, desenvolvimento de tramas que provocassem as emoções até um clímax e conduzissem a um final previsível.



  
2. (Fuvest 2013)  Embora seja, com frequência, irônico a respeito do livro e de si mesmo, o narrador das Viagens na minha terra não deixa de declarar ao leitor que essa obra é “primeiro que tudo”, “um símbolo”, na medida em que, diz ele, “uma profunda ideia (...) está oculta debaixo desta ligeira aparência de uma viagenzita que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada (...)”.

Tendo em vista essas declarações do narrador e considerando a obra em seu contexto histórico e literário, responda ao que se pede.
a) Do ponto de vista da história social e política de Portugal, o que está simbolizado nessa viagem?
b) Considerada, agora, do ponto de vista da história literária, o que essa obra de Garrett representa na evolução da prosa portuguesa? Explique resumidamente.  


Resposta:

a) A obra "Viagens na Minha Terra" de Almeida Garrett estabelece um paralelo com os eventos históricos e sociais que explicam a decadência do império português. Assim, os personagens deixam transparecer a crise de valores que assolava a sociedade da época, como o apego à materialidade em ações que buscassem compensação imediata, sem preocupação com futuras consequências. Frei Dinis e Carlos representam, respectivamente, o Portugal conservador e absolutista dos miguelistas e o espírito renovador dos liberais que pretendiam o restauro das soluções constitucionais de 1822.
b) A oscilação do foco narrativo, a variação de gêneros dentro da narrativa, a digressão, a metalinguagem, os diálogos informais com o leitor, o uso de variantes da linguagem e a forte expressividade de descrições permitem considerar a obra “Viagens na minha terra” como o marco inicial da prosa moderna da prosa portuguesa, antecipadora do Realismo de Eça de Queirós.  



  
3. (Unifesp 2012)  Leia o poema de Almeida Garrett.

Seus olhos
Seus olhos – se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou –
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.
Divino, eterno! – e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.

Da leitura do poema, depreende-se que se trata de obra do
a) Barroco, no qual se identifica o escapismo psicológico.   
b) Arcadismo, no qual se identifica a contenção do sentimento.   
c) Romantismo, no qual se identifica a idealização da mulher.   
d) Realismo, no qual se identifica o pessimismo extremo.   
e) Modernismo, no qual se identifica a busca pela liberdade.    


Resposta:

[C]

Na estética romântica, a figura da mulher é idealizada, oscilando entre duas tendências: ora
é purificadora do coração do amante, capaz de enobrecer sua alma, aproximando-o de Deus, ora é possuidora de encanto mágico que o seduz, consome e leva à perdição e loucura. No poema de Almeida Garrett, os paroxismos presentes em “tinham luz de brilhar” X ”Era chama de queimar” e “vivaz”X”fatal” caracterizam a mulher como um ser divinal e ao mesmo tempo desencadeador de paixões que levam à aniquilação do ser (“Divino, eterno! – e suave/Ao mesmo tempo”, “Nem ficou mais de meu ser,/Senão a cinza em que ardi”). Assim, é correta a opção [C]. 



  
4. (Unifesp 2006)          ESTE INFERNO DE AMAR

Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?
            (Almeida Garret)

Nos versos de Garrett, predomina a função
a) metalinguística da linguagem, com extrema valorização da subjetividade no jogo entre o espiritual e o profano.   
b) apelativa da linguagem, num jogo de sentido pelo qual o poeta transmite uma forma idealizada de amor.   
c) referencial da linguagem, privilegiando-se a expressão de forma racional.   
d) emotiva da linguagem, marcada pela não contenção dos sentimentos, dando vazão ao subjetivismo.   
e) fática da linguagem, utilizada para expressar as ideias de forma evasiva, como sugestões.   


Resposta:

[D]




TEXTOS PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
TEXTO I:
"O Vale de Santarém é um destes lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita; não há ali nada grandioso nem sublime, mas há uma como simetria de cores, de sons, de disposição em tudo quanto se vê e se sente, que não parece senão que a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração devem viver ali, reinar ali um reinado de amor e benevolência. (...) Imagina-se por aqui o Éden que o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração.
À esquerda do vale, e abrigado do norte pela montanha que ali se corta quase a pique, está um maciço de verdura do mais belo viço e variedade. (...)
Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro das árvores a janela meio aberta de uma habitação antiga, mas não dilapidada - (...) A janela é larga e baixa; parece mais ornada e também mais antiga que o resto do edifício, que todavia mal se vê..."
(Almeida Garrett, Viagens na minha terra.)


TEXTO II:
"Depois, fatigado do esforço supremo, [o rio] se estende sobre a terra, e adormece numa linda bacia que a natureza formou, e onde o recebe como um leito de noiva, sob as cortinas de trepadeiras e flores agrestes.
A vegetação nessas paragens ostentava outrora todo o seu luxo e vigor; florestas virgens se estendiam ao longo das margens do rio, que corria no meio das arcarias de verdura e dos capitéis formados pelos leques das palmeiras.
Tudo era grande e pomposo no cenário que a natureza, sublime artista, tinha decorado para os dramas majestosos dos elementos, em que o homem é apenas um simples comparsa. (...)
Entretanto, via-se à margem direita do rio uma casa larga e espaçosa, construída sobre uma eminência e protegida de todos os lados por uma muralha de rocha cortada a pique."
(José de Alencar, O guarani.)


TEXTO III:
"Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado:
Ali em vale um monte está mudado:
Quanto pode dos anos o progresso!

Árvores aqui vi tão florescentes,
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes."
(Cláudio Manuel da Costa, Sonetos-VII.)


5. (Unifesp 2002)  Lendo-se atentamente os textos I (de Almeida Garrett) e II (de José de Alencar), percebe-se que ambos os narradores se identificam quanto à atitude de admiração e louvor à natureza contemplada.
Entretanto, verifica-se também, entre os dois, uma diferença profunda e marcante no seu ato contemplativo, quanto aos valores atribuídos a essa natureza. Essa diferença é marcada
a) pela existência da vegetação.   
b) pela avaliação da magnitude e da beleza do cenário.   
c) pela inclusão, na paisagem natural, da habitação humana.   
d) pelo predomínio das referências ao mundo vegetal sobre as referências ao mundo mineral (terra, rocha, montanha etc.).   
e) pela explicitação da perda do paraíso terrestre.   


Resposta:

[B]




TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:
            "Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou explicar como nós hoje em dia fazemos a nossa literatura. Já me não importa guardar segredo; depois desta desgraça, não me importa já nada. Saberás, pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler.
            Trata-se de um romance, de um drama. Cuidas que vamos estudar a História, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros, os edifícios, as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos. Desenhar caracteres e situações do vivo da natureza, colori-los das cores verdadeiras da História... isso é trabalho difícil, longo, delicado; exige um estudo, um talento, e sobretudo um tacto!... Não, senhor, a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.
            Todo o drama e todo o romance precisa de:
            Uma ou duas damas,
            Um pai,
            Dois ou três filhos de dezanove a trinta anos,
            Um criado velho,
            Um monstro, encarregado de fazer as maldades,
            Vários tratantes, e algumas pessoas capazes para intermédios.
            Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eugénio Sue, de Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras que precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde, pardo, azul - como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e scrap-books; forma com elas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se às crônicas, tiram-se uns poucos de nomes e palavrões velhos; com os nomes crismam-se os figurões; com os palavrões iluminam-se... (estilo de pintor pinta-monos). - E aqui está como nós fazemos a nossa literatura original. "
(cap. V - fragmento) In: Garrett, Almeida. Obra Completa - I, Porto, Lello & Irmão, 1963, pp. 27-28.



6. (Unesp 1993)  Almeida Garrett (1799-1854), que pertenceu à primeira fase do romantismo português, é poeta, prosador e dramaturgo dos mais importantes da Literatura Portuguesa. Em Viagens na Minha Terra (1846), mistura, em prosa rica, variada e espirituosa, o relato jornalístico, a literatura de viagens, as divagações sobre temas da época e os comentários críticos, muitas vezes mordazes, sobre a literatura em voga, no período. Releia o texto que lhe apresentamos e, a seguir, responda:
a) a que gêneros literários se refere Almeida Garrett?
b) quais os principais defeitos, segundo Garrett, dos escritores que elaboravam obras de tais gêneros?


Resposta:

a) Dramático - teatro e Épico - romance.
b) Imitação, pelos escritores portuguêses, aos escritores franceses. Artificialismo na criação literária.



 
7. (Fuvest 2013)  Em Viagens na minha terra, assim como em
a) Memórias de um sargento de milícias, embora se situem ambas as obras no Romantismo, criticam-se os exageros de idealização e de expressão que ocorrem nessa escola literária.   
b) A cidade e as serras, a preferência pelo mundo rural português tem como contraponto a ojeriza às cidades estrangeiras – Paris, em particular.   
c) Vidas secas, os discursos dos intelectuais são vistos como “a prosa vil da nação”, ao passo que a sabedoria popular “procede da síntese transcendente, superior e inspirada pelas grandes e eternas verdades”.   
d) Memórias póstumas de Brás Cubas, a prática da divagação e da digressão exerce sobre todos os valores uma ação dissolvente, que culmina, em ambos os casos, em puro niilismo.   
e) O cortiço, manifestam-se, respectivamente, tanto o antibrasileirismo do escritor português quanto o antilusitanismo do seu par brasileiro, assim como o absolutismo do primeiro e o liberalismo do segundo.   


Resposta:

[A]

As opções [B], [C], [D] e [E] são incorretas, pois em “Viagens na minha terra”, de Almeida Garrett, não se manifesta

[B] aversão às cidades estrangeiras;
[C] oposição de discurso de intelectuais à estratégia de sobrevivência dos retirantes de “Vidas Secas”, cuja “sabedoria” não é fundada em análises filosóficas nem existenciais, mas sim primária e instintiva;
[D] postura niilista semelhante à de alguns capítulos de “Memórias póstumas de Brás Cubas”;
[E] não existe antibrasileirismo e seu autor reflete através do personagem Carlos os conceitos do liberalismo.

Assim, é correta apenas [A]. 



  
8. (Fuvest 2013)  Os momentos históricos em que se desenvolvem os enredos de Viagens na minha terra, Memórias de um sargento de milícias e Memórias póstumas de Brás Cubas (quanto a este último, em particular no que se refere à primeira juventude do narrador) são, todos, determinados de modo decisivo por um antecedente histórico comum – menos ou mais imediato, conforme o caso. Trata-se da
a) invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas.   
b) turbulência social causada pelas revoltas regenciais.   
c) volta de D. Pedro I a Portugal.   
d) proclamação da independência do Brasil.   
e) antecipação da maioridade de D. Pedro II.   


Resposta:

[A]


Os momentos históricos em que se desenvolvem os enredos de “Viagens na minha terra”, “Memórias de um sargento de milícias” e “Memórias póstumas de Brás Cubas” estão relacionados com a invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas. No primeiro, exibem-se os conflitos de uma sociedade em crise que se dividia entre o absolutismo de teor nacionalista e o liberalismo, associado por muitos ao país invasor e por isso considerado antinacionalista. Em “Memórias de um sargento de milícias”, relatam-se os costumes do Rio Colonial na época de D. João VI, momento em que a corte real portuguesa se refugiou no Brasil para evitar a rendição às tropas francesas.  Em “Memórias póstumas de Brás Cubas”, o narrador relata que, durante a sua infância, eram frequentes debates familiares sobre o referido tema. Assim, é correta a opção [A].