TEXTO PARA A
PRÓXIMA QUESTÃO:
Declaração
Devia
começar, como o sabe de cor e salteado a maioria dos leitores, que é sem dúvida
nenhuma muito entendida na matéria, por uma declaração em forma.
Mas em amor,
assim como em tudo, a primeira saída é o mais difícil. Todas as vezes que esta ideia
vinha à cabeça do pobre rapaz, passava-lhe uma nuvem escura por diante dos
olhos e banhava-se-lhe o corpo em suor. Muitas semanas levou a compor, a
estudar o que havia de dizer a Luizinha quando aparecesse o momento decisivo.
Achava com facilidade milhares de ideias brilhantes: porém, mal tinha assentado
em que diria isto ou aquilo, já isto ou aquilo lhe não parecia bom. Por várias
vezes, tivera ocasião favorável para desempenhar a sua tarefa, pois estivera a
sós com Luizinha; porém, nessas ocasiões, nada havia que pudesse vencer um
tremor nas pernas que se apoderava dele, e que não lhe permitia levantar-se do
lugar onde estava, e um engasgo que lhe sobrevinha, e que o impedia de
articular uma só palavra. Enfim, depois de muitas lutas consigo mesmo para
vencer o acanhamento, tomou um dia a resolução de acabar com o medo, dizer-lhe
a primeira coisa que lhe viesse à boca.
Luizinha
estava no vão de uma janela a espiar para a rua pela rótula: Leonardo
aproximou-se tremendo, pé ante pé, parou e ficou imóvel como uma estátua atrás
dela que, entretida para fora, de nada tinha dado fé. Esteve assim por longo
tempo calculando se devia falar em pé ou se devia ajoelhar-se. Depois fez um
movimento como se quisesse tocar no ombro de Luizinha, mas retirou depressa a
mão. Pareceu-lhe que por aí não ia bem; quis antes puxar-lhe pelo vestido, e ia
já levantando a mão quando também se arrependeu. Durante todos esses movimentos
o pobre rapaz suava a não poder mais. Enfim, um incidente veio tirá-lo da
dificuldade.
Ouvindo
passos no corredor, entendeu que alguém se aproximava, e tomado de terror por
se ver apanhado naquela posição, deu repentinamente dois passos para trás, e
soltou um - ah! - muito engasgado. Luizinha, voltando-se, deu com ele diante de
si, e recuando espremeu-se de costas contra a rótula: veio-lhe também outro -
ah! - porém não lhe passou da garganta e conseguiu apenas fazer uma careta.
A bulha dos
passos cessou sem que ninguém chegasse à sala; os dois levaram algum tempo
naquela mesma posição, até que Leonardo, por um supremo esforço, rompeu o
silêncio, e com voz trêmula e em tom o mais sem graça que se possa imaginar
perguntou desenxabidamente:
- A
senhora... sabe... uma coisa?
E riu-se com
uma risada forçada, pálida e tola.
Luizinha não
respondeu. Ele repetiu no mesmo tom:
- Então... a
senhora... sabe ou... não sabe?
E tornou a
rir-se do mesmo modo. Luizinha conservou-se muda.
- A senhora
bem sabe... é porque não quer dizer...
Nada de
resposta.
- Se a
senhora não ficasse zangada... eu dizia...
Silêncio.
- Está
bom... Eu digo sempre... mas a senhora fica ou não fica zangada?
Luizinha fez
um gesto de quem estava impacientada.
- Pois então
eu digo... a senhora não sabe... eu... eu lhe quero... muito bem...
Luizinha
fez-se cor de uma cereja; e fazendo meia volta à direita, foi dando as costas
ao Leonardo e caminhando pelo corredor. Era tempo, pois alguém se aproximava.
Leonardo
viu-a ir-se, um pouco estupefato pela resposta que ela lhe dera, porém, não de
todo descontente: seu olhar de amante percebera que o que se acabava de passar
não tinha sido totalmente desagradável a Luizinha.
Quando ela
desapareceu, soltou o rapaz um suspiro de desabafo e assentou-se, pois se achava
tão fatigado como se tivesse acabado de lutar braço a braço com um gigante.
(Manuel Antônio de Almeida. Memórias de um Sargento de Milícias.)
1. (Unirio 2003) De acordo com a norma culta da língua, o trecho destacado - "- Se a
senhora não ficasse zangada... eu dizia..." - apresenta uma inadequação no
uso do tempo verbal.
Essa
inadequação pode ser corrigida com a seguinte alteração:
a) "-
Se a senhora não ficasse zangada... eu dissera..."
b) "-
Se a senhora não ficasse zangada... eu diria..."
c) "-
Se a senhora não ficasse zangada... eu direi..."
d) "-
Se a senhora não ficasse zangada... eu digo..."
e) "-
Se a senhora não ficasse zangada... dirá..."
TEXTO PARA A
PRÓXIMA QUESTÃO:
Os
leitores estarão lembrados do que o compadre dissera quando estava a fazer
castelos no ar a respeito do afilhado, e pensando em dar-lhe o mesmo ofício que
exercia, isto é, daquele arranjei-me, cuja explicação prometemos dar. Vamos
agora cumprir a promessa.
Se
alguém perguntasse ao compadre por seus pais, por seus parentes, por seu
nascimento, nada saberia responder, porque nada sabia a respeito. Tudo de que
se recordava de sua história reduzia-se a bem pouco. Quando chegara à idade de
dar acordo da vida achou-se em casa de um barbeiro que dele cuidava, porém que
nunca lhe disse se era ou não seu pai ou seu parente, nem tampouco o motivo por
que tratava da sua pessoa. Também nunca isso lhe dera cuidado, nem lhe veio a
curiosidade de indagá-lo.
Esse
homem ensinara-lhe o ofício, e por inaudito milagre também a ler e a escrever.
Enquanto foi aprendiz passou em casa do seu... mestre, em falta de outro nome,
uma vida que por um lado se parecia com a do fâmulo*, por outro com a do filho,
por outro com a do agregado, e que afinal não era senão vida de enjeitado, que
o leitor sem dúvida já adivinhou que ele o era. A troco disso dava-lhe o mestre
sustento e morada, e pagava-se do que por ele tinha já feito.
(*)
fâmulo: empregado, criado
(Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias)
2. (Fuvest 2003) Neste
excerto, mostra-se que o compadre provinha de uma situação de família irregular
e ambígua. No contexto do livro, as situações desse tipo
a) caracterizam os costumes
dos brasileiros, por oposição aos dos imigrantes portugueses.
b) são apresentadas como
consequência da intensa mestiçagem racial, própria da colonização.
c) contrastam com os rígidos
padrões morais dominantes no Rio de Janeiro oitocentista.
d) ocorrem com frequência no
grupo social mais amplamente representado.
e) começam a ser corrigidas
pela doutrina e pelos exemplos do clero católico.
3. (Ufrn 2002) Em relação
a "Memórias de um Sargento de Milícias", de Manuel Antonio de
Almeida, pode-se afirmar que
a) o personagem central narra
suas aventuras no Rio de Janeiro à época de Dom João VI.
b) o romance se distancia do
caráter idealizante que marcou a prosa romântica brasileira.
c) o romance focaliza a
trajetória de um militar empenhado em manter os ideais monárquicos.
d) a obra pode ser vista como
um romance ligado à vida das elites brasileiras da época.
4. (Pucsp 2002) Das
alternativas abaixo, indique a que CONTRARIA as características mais
significativas do romance "Memórias de um Sargento de Milícias", de
Manuel Antônio de Almeida.
a) Romance de costumes que
descreve a vida da coletividade urbana do Rio de Janeiro, na época de D. João
VI.
b) Narrativa de malandragem,
já que Leonardo, personagem principal, encarna o tipo do malandro amoral que
vive o presente, sem qualquer preocupação com o futuro.
c) Livro que se liga aos
romances de aventura, marcado por intenção crítica contra a hipocrisia, a
venalidade, a injustiça e a corrupção social.
d) Obra considerada de
transição para um novo estilo de época, ou seja, o Realismo/Naturalismo.
e) Romance histórico que
pretende narrar fatos de tonalidade heroica da vida brasileira, como os vividos
pelo Major Vidigal, ambientados no tempo do rei.
5. (Ufsm 2002) Assinale a
alternativa que completa corretamente as lacunas no período a seguir.
O meirinho __________ e a
aldeã __________, vindos juntos de Portugal, têm um filho ilegítimo,
__________, personagem central do livro __________.
a) Leonardo Pataca - Maria da
Hortaliça - Leonardo - "Memórias de um sargento de milícias"
b) Olímpico de Jesus - Macabéa
- Olímpico de Jesus - "A
hora da estrela"
c) Vidigal - Maria da
Hortaliça - Leonardo Pataca - "Memórias de um sargento de milícias"
d) Rodrigo S. M. - Macabéa -
Olímpico de Jesus - "A hora da estrela"
e) Miranda - Bertoleza - João
Romão - "O cortiço"
TEXTO PARA AS
PRÓXIMAS 2 QUESTÕES:
Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo
algibebe1 em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e
viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o
emprego de que o vemos empossado, e que exercia, como dissemos, desde tempos
remotos. Mas viera com ele no mesmo navio, não sei fazer o quê, uma certa Maria
da hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia2 rechonchuda
e bonitona. O Leonardo, fazendo-se-lhe justiça, não era nesse tempo de sua
mocidade mal apessoado, e sobretudo era maganão3. Ao sair do Tejo,
estando a Maria encostada à borda do navio, o Leonardo fingiu que passava
distraído por junto dela, e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente
pisadela no pé direito. A Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se
como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo
beliscão nas costas da mão esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo
os usos da terra: levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer
passou-se a mesma cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta
vez um pouco mais fortes, e no dia seguinte estavam os dois amantes tão
extremosos e familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.
(Manuel
Antônio de Almeida, Memórias de um
sargento de milícias)
Glossário:
1 algibebe:
mascate, vendedor ambulante.
2 saloia:
aldeã das imediações de Lisboa.
3 maganão:
brincalhão, jovial, divertido.
6. (Fuvest 2002) No
excerto, o narrador incorpora elementos da linguagem usada pela maioria das
personagens da obra, como se verifica em:
a) aborrecera-se porém do
negócio.
b) de que o vemos empossado.
c) rechonchuda e bonitota.
d) envergonhada do gracejo.
e) amantes tão extremosos.
7. (Fuvest 2002) Neste
excerto, o modo pelo qual é relatado o início do relacionamento entre Leonardo
e Maria
a) manifesta os sentimentos
antilusitanos do autor, que enfatiza a grosseria dos portugueses em oposição ao
refinamento dos brasileiros.
b) revela os preconceitos
sociais do autor, que retrata de maneira cômica as classes populares, mas de
maneira respeitosa a aristocracia e o clero.
c) reduz as relações amorosas
a seus aspectos sexuais e fisiológicos, conforme os ditames do Naturalismo.
d) opõe-se ao tratamento
idealizante e sentimental das relações amorosas, dominante no Romantismo.
e) evidencia a brutalidade das
relações inter-raciais, própria do contexto colonial-escravista.
8. (Ufpe 2001) TEXTO 1
" - és filho de uma
pisadela e de um beliscão; mereces que um pontapé te acabe a casta. (...) O
menino suportou tudo com coragem de mártir, apenas abriu ligeiramente a boca
quando foi levantado pelas orelhas: mal caiu, ergueu-se, embarafustou pela porta
fora, e em três pulos estava dentro da loja do padrinho, e atracando-se-lhe às
pernas."
(Manuel A. de Almeida: "Memórias de um Sargento de
Milícias").
TEXTO 2
"- Algum tempo hesitei
se deveria abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em
primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Eu não sou propriamente um
autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; (...)
Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo;
diferença radical entre este livro e o Pentateuco."
(Machado de Assis: "Memórias Póstumas de Brás
Cubas").
Após a leitura atenta dos
textos 1 e 2, assinale a alternativa correta.
a) Apesar de ambos os romances
intitularem-se 'memórias', o primeiro não é contado em 1a pessoa e
relata a vida do protagonista depois que se torna sargento de milícias; já o
texto de Machado traz um " defunto autor".
b) Manuel de Almeida
aproxima-se da linguagem coloquial falada no Brasil de seu tempo, enquanto
Machado de Assis, não.
c) O texto de Manuel de
Almeida, considerado precursor do Realismo em nossas letras, e o de Machado
traduzem o cientificismo dominante na época.
d) No texto 1, o autor
descreve a forma de tratar as crianças na nobreza no Rio de Janeiro de D. João
VI.
e) É característica notória da
obra de Machado a ironia, traço que não é apresentado no texto 2.
Gabarito:
Resposta da questão 1:
[B]
[B]
Resposta da questão 2:
[D]
[D]
Resposta da questão 3:
[B]
[B]
Resposta da questão 4:
[E]
[E]
Resposta da questão 5:
[A]
[A]
Resposta da questão 6:
[C]
[C]
Resposta da questão 7:
[D]
[D]
Resposta da questão 8:
[B]
[B]
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