quinta-feira, 25 de setembro de 2014

M P B CUBAS - EXERCÍCIOS

O romance "Memórias póstumas de Brás Cubas" publicou-se num momento significativo da Literatura Brasileira, tanto para a carreira de Machado de Assis, como para o desenvolvimento da prosa no Brasil. Tornou-se um divisor entre:
a) a prosa romântica e a realista-naturalista;
b) o romantismo e o cientificismo literário;
c) os remanescentes clássicos e a necessidade de modernização;
d) o espírito conservador e o espírito revolucionário;
e) a prosa finissecular e a imposição renovadora da época.



"(...) e tudo ficou sob a guarda de Dona Plácida,
suposta, e, a certos respeitos, verdadeira dona da casa.
Custou-lhe muito a aceitar a casa: farejara a intenção e doía-lhe o ofício: mas afinal cedeu (...)
Eu queria angariá-la (...). Quando obtive a confiança, imaginei uma história patética dos meus amores com Virgília, um caso anterior ao casamento, a resistência do pai, a dureza do marido, e não sei que outros toques de novela. Dona Plácida não rejeitou uma só página da novela; aceitou-as todas. Era uma necessidade da consciência. Ao cabo de seis meses quem nos visse a todos três juntos diria que Dona Plácida era minha sogra.
Não fui ingrato; fiz-lhe um pecúlio de cinco contos."

Considerando o trecho de MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, de Machado de Assis, assinale a alternativa correta quanto ao procedimento do narrador.
a) Denuncia o comportamento de Plácida, que coloca o dinheiro acima de qualquer outro valor.
b) Ironiza a atitude de Plácida, que aceita como verdadeira uma história inventada..
c) Fica comovido com a dor de Plácida e passa a tratá-la como sogra.
d) Identifica-se com Plácida, para quem o ideal amoroso está acima das convenções sociais.
e) Critica a atitude de Plácida, que valoriza a instituição familiar falida.

Todas as afirmativas sobre o narrador de MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, de Machado de Assis, estão corretas, EXCETO
a) Assume a condição de defunto autor para rever sarcasticamente a sua própria vida.
b) Faz constantes referências ao processo de construção do livro.
c) Interrompe com freqüência o fluxo da narrativa para conversar com o leitor.
d) Mantém um compromisso com a verdade ao retratar fielmente a realidade dos fatos.
e) Usa de alegorias para discorrer sobre o tempo, o amor e a miséria humana.



Todas as afirmativas sobre MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS estão corretas, EXCETO
a) Brás Cubas sentia-se orgulhoso e envaidecido da sua condição de amante de uma mulher casada.
b) Dona Plácida aceitou acobertar os encontros de Virgília e Brás Cubas por admirar o amor dos dois.
c) Lobo Neves, diante do olhar da opinião pública, fingia ignorar o caso de Virgília com Brás Cubas.
d) Virgília, embora afeita à transgressão, tentava conservar a integridade do seu casamento.
e) Virgília refutou a proposta de fugir com o amante por temer que o marido a procurasse e a matasse.

Todas as alternativas sobre o narrador de MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, de Machado de Assis, estão corretas, EXCETO
a) Analisa o ser humano, focalizando o seu lado negativo, seus defeitos morais.
b) Conta a história de forma regular e fluente, preocupando-se com a compreensão do leitor.
c) Informa que a causa de sua morte foi uma idéia fixa, a obsessão com o emplasto Brás Cubas.
d) Não hesita em apontar seus próprios erros e imperfeições, pois está a salvo dos juízos alheios.
e) Não vê com bons olhos a figura do crítico, chegando mesmo a ridicularizá-lo.

Todos os trechos extraídos de MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS expressam a idéia de que o ser humano sempre se mira num espelho social, o olhar do público, EXCETO
a) "Então, - e vejam até que ponto pode ir a imaginação de um homem, com sono, - então pareceu-me ouvir de um morcego encarapitado no tejadilho: Sr. Brás Cubas, a rejuvenescência estava na sala, nos cristais, nas luzes, nas sedas, - enfim, nos outros."
b) "Minha mãe era uma senhora fraca, de pouco cérebro e muito coração, assaz crédula, sinceramente piedosa, - caseira, apesar de bonita, e modesta, apesar de abastada; temente às trovoadas e ao marido. O marido era na Terra o seu deus. Da colaboração dessas duas criaturas nasceu a minha educação (...)"
c) "Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo..."
d) "O alienista notou então que ele escancarava as janelas todas desde longo tempo, que alçara as cortinas, que devassara o mais possível a sala, ricamente alfaiada, para que a vissem de fora, e concluiu: - Este seu criado tem a mania do ateniense: crê que todos os navios são dele; uma hora de ilusão que lhe dá a maior felicidade da terra."
e) "Pareceu-me então (e peço perdão à crítica, se este meu juízo for temerário!) pareceu-me que ele tinha medo - não de mim, nem de si, nem do código, nem da consciência; tinha medo da opinião. Supus que esse tribunal anônimo e invisível, em que cada membro acusa e julga, era o limite posto à vontade do Lobo Neves."


Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.

A condição na qual anteriormente se apresenta o narrador das MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, de Machado de Assis, permitiu-lhe
a) isentar-se de qualquer compromisso com a realidade objetiva, permanecendo no plano do imaginário e do fantástico.
b) manter um frio julgamento de sua própria história, dispensando as marcas subjetivas da ironia e do humor.
c) reconstruir caprichosamente a totalidade da própria história, com humor crítico e discreta melancolia.
d) pairar acima das fraquezas humanas, analisando-as com rigor ético e severidade moral.
e) satirizar as tendências românticas e espiritualistas da época, submetendo-as a uma visão cientificista da História.

O capítulo I - ÓBITO DO AUTOR - e o último capítulo - DAS NEGATIVAS -, de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", fazem referências, respectivamente, a uma hesitação sobre a abertura pelo princípio ou pelo fim das memórias do defunto autor, e a um saldo no balanço da vida. Considerando esses capítulos e utilizando informações de que você dispõe sobre o romance, é correto declarar que o narrador Brás Cubas

a) é um autor defunto que oniscientemente começa a narrar, pela morte, as memórias de amigos céticos e vaidosos, incluindo nesse narrar um balanço de sua própria história.
b) estrutura a narrativa de modo a principiá-la pelo fim, ou seja, pela morte, e vai, aos poucos até o final, revelando ao leitor a razão de um defunto autor se interessar em escrever suas memórias.
c) é um autor defunto que relata seu enterro com grandeza, embora não deixe de confessar sua vida de fracassos, confirmados no último capítulo.
d) estrutura a narrativa de modo que o leitor siga a cronologia dos acontecimentos da vida do autor defunto, desde a sua morte até o nascimento.
e) é um autor defunto que relata a própria morte, narrando suas memórias a partir do nascimento, intercalando-as com reflexões psicológicas e finalizando-as com um pequeno saldo.

http://www.professor.bio.br/portugues/search.asp?search=Mem%F3rias+p%F3stumas

M P B CUBAS - MATERIAL DE ESTUDO

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS PDF

Fonte: Assis, Machado de. Obra Completa. vol. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.  Publicado originalmente em folhetins, a partir de março de 1880, na Revista Brasileira Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para .


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satírico ou irônico. Aguardamos dos amigos leitores críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior.
 ® @njo


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Artigo Destacado

O RIO DE MACHADO DE ASSIS

O Brás Cubas está no minuto 34.

Publicado em 27/04/2014
O Rio de Janeiro de Machado de Assis (Norma Bengell; Sônia Nercessian; Kika Lopes)
----------------------------------------­-------
Produção: Norma Bengell
Filme de : Sônia Nercessian e Kika Lopes
Elenco: Paulo José, Fernanda Torres, José de Abreu, Tonico Pereira.
Realização: NB Produções e Globosat
Documentário sobre aspectos da vida e personalidade do escritor brasileiro Machado de Assis, fundador da ABL. O documentário analisa aspectos pessoais de Machado, seu relacionamento e identificação com a cidade onde nasceu e viveu, os personagens de suas obras e a interação dos mesmos com a personalidade do autor, incluindo comentários de escritores, especialistas e aficcionados e exemplificações de personagens como a Capitu, o Conselheiro Aires, Quincas Borba, Brás Cubas, com a participação dos atores Paulo José, Fernanda Torres, José de Abreu e Tonico Pereira.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS



MEMÓRIAS PÓSTUMAS...

Ao criar um narrador que resolve contar sua vida depois de morto, Machado de Assis muda radicalmente o panorama da literatura brasileira, além de expor de forma irônica os privilégios da elite da época.

Narrador
A narração é feita em primeira pessoa e postumamente, ou seja, o narrador se auto intitula um defunto-autor – um morto que resolveu escrever suas memórias. Assim, temos toda uma vida contada por alguém que não pertence mais ao mundo terrestre. Com esse procedimento, o narrador consegue ficar além de nosso julgamento terreno e, desse modo, pode contar as memórias da forma como melhor lhe convém. 




Foco Narrativo
Com a narração em primeira pessoa, a história é contada partindo de um relato do narrador-observador e protagonista, que conduz o leitor tendo em vista sua visão de mundo, seus sentimentos e o que pensa da vida. Dessa maneira, as memórias de Brás Cubas nos permitirão ter acesso aos bastidores da sociedade carioca do século XIX. 




Tempo
A obra é apoiada em dois tempos. Um é o tempo psicológico, do autor além-túmulo, que, desse modo, pode contar sua vida de maneira arbitrária, com digressões e manipulando os fatos à revelia, sem seguir uma ordem temporal linear. A morte, por exemplo, é contada antes do nascimento e dos fatos da vida.

No tempo cronológico, os acontecimentos obedecem a uma ordem lógica: infância, adolescência, ida para Coimbra, volta ao Brasil e morte. A estranheza da obra começa pelo título, que sugere as memórias narradas por um defunto. O próprio narrador, no início do livro, ressalta sua condição: trata-se de um defunto-autor, e não de um autor defunto. Isso consiste em afirmar seus méritos não como os de um grande escritor que morreu, mas de um morto que é capaz de escrever.



http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/romance/marm05.pdf  p.1,2,3


O pacto de verossimilhança sofre um choque aqui, pois os leitores da época, acostumados com a linearidade das obras (início, meio e fim), veem-se obrigados a situar-se nessa incomum situação.

http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/romance/marm05.pdf  p.78


Não-realizações
Publicado em 1881, o livro aborda as experiências de um filho abastado da elite brasileira do século XIX, Brás Cubas. Começa pela sua morte, descreve a cena do enterro, dos delírios antes de morrer, até retornar a sua infância, quando a narrativa segue de forma mais ou menos linear – interrompida apenas por comentários digressivos do narrador. 

O romance não apresenta grandes feitos, não há um acontecimento significativo que se realize por completo. A obra termina, nas palavras do narrador, com um capítulo só de negativas. 

http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/romance/marm05.pdf  p.139

A força da obra está justamente nessas não-realizações, nesses detalhes. Os leitores ficam sempre à espera do desenlace que a narrativa parece prometer. Ao fim, o que permanece é o vazio da existência do protagonista. É preciso ficar atento para a maneira como os fatos são narrados. Tudo está mediado pela posição de classe do narrador, por sua ideologia. Assim, esse romance poderia ser conceituado como a história dos caprichos da elite brasileira do século XIX e seus desdobramentos, contexto do qual Brás Cubas é, metonimicamente, um representante.

O que está em jogo é se esses caprichos vão ou não ser realizados. Alguns exemplos: a hesitação ao começar a obra pelo fim ou pelo começo; comparar suas memórias às sagradas escrituras; desqualificar o leitor: dar-lhe um piparote, acusá-lo de ser o principal defeito da obra; e o próprio fato de escrever após a morte. Se Brás Cubas teve uma vida repleta de caprichos, em virtude de sua posição de classe, é natural que, ao escrever suas memórias, o livro se componha desse mesmo jeito.

O mais importante não é a realização ou não dessas veleidades, mas o direito de tê-las, que está reservado apenas a uns poucos da sociedade da época. Veja-se o exemplo de Dona Plácida e do negro Prudêncio. Ambos são personagens secundários e trabalham para os grandes. A primeira nasceu para uma vida de sofrimentos. Dona Plácida serve ainda de álibi para que Brás e Virgília possam concretizar o amor adúltero numa casa alugada para isso.


http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/romance/marm05.pdf  p. 79


Com Prudêncio, vê-se como a estrutura social se incorpora ao indivíduo. Ele fora escravo de Brás na infância e sofrera os espancamentos do senhor. Um dia, Brás Cubas o encontra, depois de alforriado, e o vê batendo num negro fugitivo. Depois de breve espanto, Brás pede para que pare com aquilo, no que é prontamente atendido por Prudêncio. O ex-escravo tinha passado a ser dono de escravo e, nessa condição, tratava outro ser humano como um animal. Sua única referência de como lidar com a situação era essa, afinal era o modo como ele próprio havia sido tratado anteriormente. Prudêncio não hesita, porém, em atender ao pedido do ex-dono, com o qual não tinha mais nenhum tipo de dívida nem obrigação a cumprir. 

http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/romance/marm05.pdf p.15



Os personagens da obra são basicamente representantes da elite brasileira do século XIX. Há, no entanto, figuras de menor expressão social, pertencentes à escravidão ou à classe média, que têm significado relevante nas relações sociais entre as classes. Assim, "Memórias Póstumas de Brás Cubas", além de seu enorme valor literário, funciona como instrumento de entendimento desse aspecto social de nossas classes, como vimos nas caracterizações de Dona Plácida e do negro Prudêncio. 


http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/romance/marm05.pdf p.76


A sociedade da época se estruturava a partir de uma divisão nítida. Havia, de um lado, os donos de escravos, urbanos e rurais, que constituíam a classe mandante do país. Estão representados invariavelmente como políticos: ministros, senadores e deputados. De outro, a escravidão é a responsável direta pelo trabalho e pelo sustento da nação e, por assim dizer, das elites. No meio, há uma classe média formada por pequenos comerciantes, funcionários públicos e outros servidores, que são dependentes e agregados dos favores dos grandes privilegiados.



"Memórias Póstumas de Brás Cubas" é uma obra que revolucionou o romance brasileiro. De cunho realista, mas sem ter as características da crítica agressiva de outros escritores do Realismo (como Eça de Queirós em Portugal), a força da obra de Machado de Assis está na crítica sutil e na grande inteligência do autor. Ao contrário do já citado escritor português Eça de Queirós, que batia de frente com a burguesia, em Memórias Póstumas a crítica à burguesia é feita  por dentro, ou seja, o escritor parte de um ponto de vista mais psicológico. Através disso, consegue-se fazer um combate ao Romantismo em sua essência através de personagens verossímeis que caberá ao leitor julgar e questionar, para dar um exemplo, a questão da ociosidade burguesa.

Esta obra Machado de Assis revolucionou o formato do romance através da subversão de padrões do Romantismo. Se no romance é de praxe escrever uma dedicatória, por exemplo, ele o faz a um verme; ao verme que o corroeu. Outro ponto que pode ser citado como exemplo é a quantidade de capítulos do livro. Se era comum ter cerca de trinta capítulos em um romance, Machado de Assis faz um livro que ultrapassa cem capítulos. Porém, alguns deles são extremamente curtos ou  "vazios". 

Material extraído do Guia do Estudante, em http://guiadoestudante.abril.com.br/estude/literatura  Adaptado

terça-feira, 26 de novembro de 2013

A CIDADE E AS SERRAS esquema geral

A CIDADE E AS SERRAS
EÇA DE QUEIRÓS


TEMPO E ESPAÇO 
O narrador-personagem, José Fernandes, é quem conta a história do amigo Jacinto. A narrativa se passa no século XIX, quando Paris era considerada a capital da Europa e o centro do mundo. Portugal, no entanto, mantinha-se como um país agrário e decadente. 
Havia grande entusiasmo, nos meios intelectuais da época, pelas teorias positivistas de Augusto Comte, criador do sistema que ordena as ciências experimentais, considerando-as o modelo por excelência do conhecimento humano, em detrimento das especulações metafísicas ou teológicas. 

ENREDO 
A narrativa inicia-se com a história de dom Galião, grande proprietário que, ao escorregar numa casca de laranja, é socorrido pelo infante dom Miguel. Desse dia em diante, o rechonchudo velho torna-se partidário fanático do príncipe. 

Em 1831, dom Pedro retorna do Brasil para assumir o trono português, destronando seu irmão, dom Miguel. Indignado, dom Galião muda-se de Portugal para Paris, levando consigo Grilo, futuro criado de Jacinto. 

Em Paris, o filho de dom Galião, Cintinho, torna-se uma criança doente e tristonha. Quando adulto, seu aspecto não melhora. Em sua única decisão mencionada no livro, prefere ficar em Paris e casar-se com a filha de um desembargador a ir tratar-se no campo. Conclusão: morre três meses antes de nascer Jacinto, seu único filho. 

Jacinto cresce como um menino forte, saudável e inteligente. Na faculdade, seu colega Zé Fernandes (o narrador) o apelida de “Príncipe da Grã-Ventura”. Em Paris, andavam em voga as teorias positivistas, das quais o protagonista se revela entusiasta. Jacinto elabora uma filosofia de vida: 

“A felicidade dos indivíduos, como a das nações, se realiza pelo ilimitado desenvolvimento da mecânica e da erudição”. 

O resultado desse entusiasmo de Jacinto por Paris, porém, se revela desastroso. Zé Fernandes retrata dessa forma a decadência do protagonista, de quem se havia separado durante sete anos: 

“Reparei então que meu amigo emagrecera; e que o nariz se lhe afilara mais entre duas rugas muito fundas, como as de um comediante cansado. Os anéis de seu cabelo lanígero rareavam sobre a testa, que perdera a antiga serenidade de mármore bem polido. Não frisava agora o bigode, murcho, caído em fios pensativos. Também notei que corcovava”. 

Zé Fernandes, então, também se deixa levar por Paris, ao ser dominado por uma paixão carnal pela prostituta Madame Colombe. O caso contraria as teorias de Jacinto, expostas no começo do livro, segundo as quais o homem se tornava um selvagem no campo. Nesse caso, foi a cidade de Paris que transformou Zé Fernandes num escravo de seus instintos. 

Segue-se uma série de episódios que ilustram o ridículo que se escondia sobre a pretensa superioridade dos parisienses. Jacinto torna-se entediado, doente, chega a lembrar seu pai, Cintinho. Então ocorre uma reviravolta: a igreja onde estavam enterrados os avós de Jacinto vem abaixo durante uma tormenta. Ele manda que se reconstrua tudo, sem se importar com os gastos. 

Na viagem de volta a Portugal, Jacinto perde quase toda a bagagem. Seu país, no entanto, devolve a saúde ao protagonista, que, revigorado, promove diversas melhorias em Tormes. Finalmente, ele se casa com Joaninha, camponesa e prima de Zé Fernandes. Na última cena do livro, Zé Fernandes, também enfastiado de Paris, parte para Tormes – o “castelo da grã-ventura” – com Jacinto e Joaninha. 

CAMPO E CIDADE 
A temática do campo versus cidade – recorrente nas obras do escritor português – é o cerne do romance A cidade e as serras, como o próprio título indica. Na tradição da literatura ocidental, o gênero bucólico ou pastoral sempre tratou da oposição entre a vida tranquila e sábia do camponês e a vida urbana, cheia de agitação fútil. Para diferenciar o que ocorre no gênero pastoral e nesse romance, é preciso entender os pressupostos daquela oposição. Por que a vida no campo seria mais “sábia” que a vida na cidade? 

O gênero bucólico, cultivado por inúmeros autores desde a Antiguidade, caracteriza-se pela criação de um personagem lírico – um pastor fictício – cujo conhecimento provém da contemplação minuciosa da natureza. Sua expressão poética será tanto mais eficaz quanto mais transmitir o efeito de possuir duas qualidades principais: sabedoria e simplicidade. 

O conceito de sabedoria mudou muito no decorrer da história. Sem a pretensão de aprofundar aqui os vários significados que a palavra teve, é interessante mostrar como esse conceito se torna problema na obra de Eça. 

O teórico Walter Benjamin definiu sabedoria como “a teoria entretecida na experiência”, fórmula que desvaloriza tanto a ação que se promove sem o governo da razão, limitada pela ignorância (simbolizada na figura do selvagem), quanto a teoria desvinculada das ações e da vida sensível (simbolizada principalmente pela informação). 

MODERNIDADE 
No romance, um exemplo de como a questão aparece está na cena em que Zé Fernandes, após ter passado sete anos em Portugal, reencontra Jacinto em Paris. Depois de verificar que o amigo parecia mais magro e abatido e admirar-se com as inovações do 202 (número da casa de Jacinto na capital francesa), Zé Fernandes observa espantado o funcionamento de um telégrafo, que transmite a Jacinto a informação de que “a fragata russa Azoff entrara em Marselha com avaria”. 
Enquanto isso, Jacinto está ocupadíssimo ao telefone. O visitante pergunta então ao anfitrião “se o prejudicava diretamente aquela avaria da Azoff”. A resposta do entediado Jacinto é: “Da Azoff?... a avaria? A mim... Não! É uma notícia”. 

Trata-se de um dado que não tem importância para Jacinto, pois sua existência está completamente afastada do destino da embarcação russa. A informação, porém, estabelece um falso vínculo entre ambos os eventos. Jacinto assiste a tudo, mas não pode tomar nenhuma atitude. A constatação é que o homem informado assiste a um jogo complexo de acontecimentos que se desenrolam por todos os lugares do mundo, muitos sem nenhuma relação aparente entre si, e fica como Jacinto diante do telégrafo: agoniado e entediado. 

Quando o protagonista volta a Portugal, encontra o mundo da experiência alheia à teoria. Se em Paris ele tinha um milhão de instrumentos incapazes de proporcionar uma vida saudável, em Portugal falta-lhe até uma cama confortável, sendo preciso improvisar uma entre as pedras. 

Vale lembrar que Jacinto fora chamado a Tormes – sua propriedade em Portugal – para reconstruir o túmulo de seus ancestrais, o que pode ser interpretado como uma religação do protagonista com suas origens, citadas no início do livro. Porém, o Jacinto que retorna é um homem muito informado e pode agora aplicar parte da grande carga teórica que adquiriu ao contexto português. É preciso primeiro livrar-se da complexidade inútil do jogo das informações e articulá-las de modo eficiente. Em resumo: agir com simplicidade. O protagonista, então, torna-se sujeito de uma ação bem direcionada, conseguindo promover muitas melhorias em Tormes, lugar atrasado e pobre.

A ideia de sabedoria encontrada nesse romance, portanto, se desvincula do que determina o gênero bucólico, em que a contemplação da natureza é a responsável pela produção do saber. O que vemos aqui é uma ideia muito mais próxima de nossa modernidade, na qual há uma ruptura entre a informação e a experiência pessoal. 

CONCLUSÃO 
As obras de Eça de Queirós podem ser agrupadas em três fases: a primeira, experimental, em que o autor publicou artigos irregulares em folhetins; a segunda, fortemente realista, que vai desde a publicação de O Crime do Padre Amaro, em 1875, até a de Os Maias, em 1888; e a terceira, pós-realista, na qual o autor se reconcilia com a sua Portugal. Nessa, destaca-se A Ilustre Casa de Ramires, de 1900, além de A Cidade e as Serras. 

A temática tratada, campo versus cidade, vem de uma longa tradição literária e é recorrente na obra do autor. Nesse romance, ele se dedica a mostrar a futilidade reinante em Paris e a satirizar as ideias positivistas que deslumbravam a juventude intelectual da época.


E DEU DRUMMOND!

Com 5 questões dedicadas ao poema Revelação do subúrbio podemos dizer que Drummond foi o bola de ouro da Fuvest 2014. Vamos falar sobre a prova de domingo, resolver mais algumas questões  e encerrarmos nossos encontros ao cair da tarde, com a exibição do vídeo português dedicado ao Viagens na minha terra.  Não percam!

PROFESSOR CARLOS FELIPE MOISÉS ANALISA "VIAGENS NA MINHA TERRA"

Em mais uma edição da Rádio Livro, produzida pela Rádio USP, o Professor Carlos Felipe Moisés analisa a obra de Almeida Garrett, Viagens na minha terra.
http://www.radio.usp.br/?page_id=1550

PROGRAMA DA RÁDIO USP (FM 93,7 MHz) ANALISA "MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS"

Mais um programa da Rádio Livro, um papo sobre o sargento de milícias. Aproveite!
http://www.radiousp.usp.br/programa.php?id=117&edicao=131030